Redação Sou Tricolor de Coração
Opinião tricolor ·
Zubeldía merecia sair, mas não agora: a diretoria do Fluminense agiu no susto
O Fluminense demitiu Luis Zubeldía em 13 de agosto, a cinco dias do jogo de volta das oitavas da Libertadores contra o Independiente Rivadavia. Eu concordo que o ciclo tinha acabado — mas a decisão veio no pior momento possível do calendário. O clube está em quarto lugar no Brasileirão e vivo no mata-mata continental: isso não é campanha de demissão. Na mesma semana, o Palmeiras empatou em casa com o Cerro Porteño e ninguém cogitou tirar o Abel Ferreira. Para mim, a diretoria leu o termômetro errado, reagiu ao barulho das redes e nos entregou uma decisão de vaga com técnico interino. Ainda assim, a ida terminou 0 a 0 e uma vitória em Mendoza nos coloca nas quartas.
Vou começar pelo ponto que provavelmente vai desagradar os dois lados: eu concordo que o ciclo do Zubeldía estava no fim. O time perdeu identidade, virou refém de um jeito de jogar que não empolgava mais ninguém, a sequência sem vitórias virou insustentável e a eliminação para o Vasco na Copa do Brasil doeu onde mais dói. Até aí, tudo certo. Ele merecia sair.
O problema não é o "se". É o quando.
Demitir treinador no meio de um mata-mata de Libertadores é decisão de quem não tem plano
O Fluminense empatou o jogo de ida das oitavas em casa, no Maracanã, contra o Independiente Rivadavia. Resultado ruim? Foi. Mas o confronto está aberto, a vaga está lá, e a resposta da diretoria foi tirar o treinador a menos de uma semana do jogo de volta, na Argentina.
Não existe nenhuma lógica esportiva nisso. Nenhuma.
Um treinador novo não chega, entende o elenco, monta a marcação da bola parada, ajusta o meio-campo e viaja para a Argentina em cinco dias. Não existe. Então a real é que a gente vai decidir uma vaga nas quartas da Libertadores com um interino — o Marcão, que já conhece a casa e merece respeito, mas que assume sem tempo, sem preparação e sem poder de decisão a médio prazo.
Traduzindo: a diretoria não aumentou nossas chances de classificar. Diminuiu. Se a intenção era demitir, o certo era esperar. Ou fazer isso semanas atrás, quando ainda dava tempo de construir alguma coisa, ou segurar até o fim da temporada e planejar a reconstrução com calma. O que não dava era escolher exatamente o pior dia possível do calendário.
E que "campanha para demissão" é essa?
Aqui é onde eu bato de frente com boa parte do que se falou nos últimos dias — e onde, curiosamente, eu me vejo mais alinhado com boa parte dos comentaristas de TV do que com a nossa própria torcida nas redes.
O Zubeldía sai com o Fluminense em quarto lugar no Brasileirão, com 35 pontos, e vivo na Libertadores, nas oitavas, com o confronto empatado. Isso não é campanha de demissão. Isso é campanha de time que está brigando pelo G-4 e ainda pode chegar longe no continente. Vamos ser honestos: se no começo do ano alguém oferecesse esse cenário em agosto, metade da torcida assinava embaixo.
E tem o espelho mais óbvio possível. Na mesma semana, o Palmeiras empatou em 1 a 1 com o Cerro Porteño dentro de casa, também na ida das oitavas, também com o confronto totalmente aberto. Alguém aí viu movimento para demitir o Abel Ferreira? Claro que não. Porque no Palmeiras existe uma estrutura que entende que resultado ruim em jogo de ida faz parte de mata-mata, e que trocar o comando no meio do fogo cruzado é o caminho mais rápido para dar errado.
A diferença entre os clubes que ganham títulos e os que vivem recomeçando é exatamente essa. Não é dinheiro. É temperatura emocional da diretoria.
O barulho está pautando o clube — e isso me preocupa
Eu não acredito em teoria da conspiração e não vou aqui dizer que alguém quer o mal do Fluminense de propósito. Não é isso.
Mas eu observo, como torcedor que acompanha tudo, uma coisa muito clara: o ecossistema de conteúdo em volta do clube funciona melhor quando o time perde. Vitória tranquila rende pouca visualização. Derrota, treinador na berlinda, "bomba", "URGENTE", corte de reação com cara de espanto na thumbnail — isso rende. Isso viraliza. Isso paga.
O resultado disso, na minha leitura, é que a pressão que chega até a diretoria hoje é artificialmente amplificada. Um grupo barulhento nas redes vira "a torcida inteira pede". Uma faixa vira "clima insustentável". E aí a diretoria, em vez de blindar o departamento de futebol, lê o termômetro errado e reage ao barulho.
Foi o que aconteceu. Uma decisão técnica sendo tomada com critério de repercussão. Isso é amadorismo. O Fluminense é um clube de 124 anos, campeão da América, que não pode governar o futebol pela aba de comentários.
Protesto de torcida é legítimo, quero deixar isso claríssimo. Torcedor paga, sofre, tem todo o direito de vaiar. O que não pode é a diretoria terceirizar a decisão para quem grita mais alto.
Agora é olhar pra frente
Dito tudo isso, a chapa está no fogo e reclamar não classifica ninguém.
E tem um detalhe que me deixa esperançoso: o empate em casa não nos eliminou. O confronto está zerado. Uma vitória na Argentina — de qualquer placar — nos coloca nas quartas de final da Copa Libertadores da América. É simples assim.
Time novo, sem treinador fixo, é imprevisível — e imprevisível corta para os dois lados. Já vi muita equipe brasileira jogar solta justamente quando ninguém esperava nada, com o grupo se juntando e assumindo a responsabilidade. O Marcão conhece esses jogadores melhor do que qualquer nome de fora conheceria em cinco dias, e a gente tem no elenco atletas com bagagem de sobra para segurar uma noite dessas fora de casa.
O Fluminense já fez coisa muito mais difícil nessa competição. Muito mais.
Então que venha a Argentina. Vou estar aqui, do outro lado do Atlântico, com a camisa vestida e a fé intacta.
Nunca é fácil. Mas é o Fluminense. E o Fluminense sempre acha um jeito.
Sou Tricolor de Coração.